Crônica: O Papel da Arte

Li uma notícia sobre a restauração de obras de arte nas estações do Metrô. Uma das obras a ser restaurada é o quadro Fiesta de Waldemar Zaidler, a minha favorita da Rede Metroviária. Ao passar pela estação Sé, sempre me chamou a atenção o quadro com a imagem de dois homens, um com uma corneta projetando  luz sobre diversos objetos. Durante esses anos,  vi os objetos saindo da corneta. Porém, vendo a foto do quadro na notícia notei que as imagens estão no fundo de todo o quadro e o artista apenas ilumina algumas  à sua frente. Ao perceber esse detalhe fiquei ainda mais impressionada. É como se a fonte de inspiração estivesse em tudo  e o artista selecionasse um pequeno pedaço para iluminar. Isso me fez refletir sobre o papel da arte enquanto projeção da realidade e como fonte de reflexão.

Projeção de uma realidade, por vezes desconhecida de alguns, gerando identificação para uns e conhecimento para outros. Como é o caso de Conceição Evaristo, que através dos seus textos retrata a população periférica e negra. Ou ainda, Guimarães Rosa e Itamar Vieira Junior ao retratar o sertão. É através desse contato com o desconhecido que a pessoa adquire conhecimento, desfaz preconceitos e amplia sua visão do mundo,  se estiver disposta a isso.

Ou ainda, a arte vista por diferentes perspectivas. No quadro embora o artista ilumine uma parte, com certeza cada pessoa  irá se ater mais a um objeto que a outro, a uma perspectiva ou detalhe que a outro. Pois a forma de ver uma obra está ligada com a bagagem pessoal e visão de mundo de cada um.

 No Clube do Livro que participo o grupo lê um livro por mês, depois se reúne para falar sobre ele. Durante as reuniões percebemos o quanto uma mesma história tem entendimentos diversos e por vezes contraditórios. É através dessa troca de visões que ampliamos a nossa. O mesmo acontece quando comentamos com outros sobre filmes, séries ou músicas, por exemplo.

Todo ser humano de alguma forma consome arte, seja através de uma exposição no Masp ou da novela das nove. Da mais popular a mais erudita estamos imersos nela desde a época das cavernas. Na verdade, necessitamos dela.

Tanto através da criação quanto do consumo da arte é possível ressignificar acontecimentos e reinterpretar fatos. Quanto ao artista, ele tem a oportunidade de se expressar e mostrar seu ponto de vista sobre o mundo. Mundo esse que será visto por diferentes perspectivas.

 É através dessa troca entre o artista e seus diferentes públicos   que aprendemos e crescemos como seres humanos.


Comments

Leave a comment